Como eles dizem, o governo parece estar ENEM aí pra gente.
Não sei se vocês lembram, mas logo no início da proposta do ministro Fernando Haddad, estudantes indignados fizeram um protesto em passeata e saíram até na TV... Uma das faixas dizia exatamente isso. Essas palavras ficaram meio que imortalizadas desde então.
Não estou aqui para criticar o governo, me posicionar como anarquista, falar que foi uma sabotagem, culpar a gráfica, culpar o ministro, culpar o Lula, ou culpar qualquer outra pessoa...
Sinceramente, eu ainda nem sei o que pensar em relação aos responsáveis (quem são?) pelo desastre que foi o ENEM 2010.
Relembrando...
Quando anunciaram que o ENEM seria adotado como forma de ingressar em uma universidade, eu mesma fui uma das pessoas que defenderam a ideia, achando ótima essa coisa de não ter que viajar para prestar vestibular, não ter que estudar história e geografia regionais, não ter que me preocupar em estudar os tipos de prova de cada faculdade separadamente. Ainda achei que teríamos do nosso lado a realização de um ENEM no meio do ano, para que pudéssemos treinar e nos preparar para essa prova.
A primeira decepção? O ENEM que conhecíamos (que alguns conheciam, na verdade, por que pouco sabíamos a respeito da prova, mesmo antes da proposta do ministro Haddad) seria mudado, e um outro estilo de prova nos seria aplicado. Ótimo. Isso não seria um obstáculo tão grande assim...
A segunda decepção? O "vazamento" da prova, comprovadamente (pelos vídeos das câmeras de segurança) uma falta de monitoramento por parte da gráfica responsável. Mas, sinceramente, quem poderia imaginar que isso ia acontecer?
A terceira decepção? Não vai ter ENEM no meio do ano. Que lindo! Nossa chance de conhecer a prova tinha ido pelos ares... Mesmo assim, ainda tínhamos esperanças.
A quarta decepção? "Não sabemos nada sobre o novo ENEM", diziam todos. Seguimos, portanto, o sábio conselho dos professores (embora estivéssemos inseguros em relação a isso): continuem estudando como antes, os mesmos conteúdos, as mesmas questões... Nada muda.
A quinta decepção? Não foi bem uma decepção, estava mais para desespero: o cartão de identificação simplesmente não chegava. Lembro que quase enlouquecemos a coordenadora da escola, D. Verônica, perguntando por que os cartões ainda não tinham chegado uma semana antes da prova. É claro, os cartões chegaram a tempo... Em dias diferentes, inclusive, para pessoas de mesma cidade... Quase chorei de alegria quando minha mãe ligou pra mim dizendo que meu cartão tinha sido entregue.
A sexta decepção? Já no dia da prova... Nas escolas e no edital, diziam: não pode levar comida, em que levar água numa garrafa transparente e sem o rótulo, não pode ir de relógio (mesmo o analógico), não pode esquecer o cartão de identificação, não pode assinar diferente da assinatura da identidade (amigos meus que fizeram a identidade ainda pequenos, com aquelas letras lindas de aluno de fundamental, quase enlouqueceram treinando a assinatura antiga), não pode falar durante a prova (óbvio, né?), não pode isso e aquilo mais... daqui a pouco não podia nada! Aliás, não podia tudo! Na prova: tinha gente comendo (vi muito mais que chocolates e barras de cereal... tinha batata-frita gigante e tudo), gente bebendo fanta uva (ai, ai, se eu soubesse que podia...), gente com relógio, gente sem cartão de identificação (só com identidade), gente que diz que assinou diferente, gente que conversou feito louco durante a prova (inclusive fiscais... tinham umas na minha sala que estavam me dando nos nervos!)...
A sétima decepção? O cartão-resposta com os nomes trocados. Isso não seria problema maior, é claro, se os fiscais tivessem dado as ordens corretas que os responsáveis pelo exame deram a eles... Mas não. Em umas salas, "marquem na ordem correta dos números, esqueçam a área designada no topo do gabarito". Em outras salas, "marquem segundo a área, esqueçam os números". Em uma sala, chegaram até a riscar o nome correspondente à área. Detalhe: não podia rasurar o gabarito. Teve um menino tão nervoso que, segundo as fiscais contaram pra nós da sala, marcou aquela bolinha que dizia "ausente". Ela era para uso exclusivo dos fiscais de prova, e isso estava escrito logo acima da bolinha. Mesmo assim, ele marcou... E agora, hein? Tadinho...
A oitava decepção? Fontes de questões erradas, alternativas absurdas, questões ambíguas, e até mesmo falta de questões na bendita prova Amarela. Uma coisa que não entendi: minhas duas provas foram amarelas, mas nenhuma teve problema com as questões...
A nona decepção? O cancelamento do ENEM. Depois da exaustiva maratona de 180 questões + redação, divididos em dois dias, com tempo de prova de apenas 4 e 5 horas, respectivamente... Tudo foi em vão. Aí a imprensa anuncia: "atenção aos alunos que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio: as provas não estão canceladas. O Ministério da Educação recorreu, e...". Mas, no outro dia: "o cancelamento das provas do ENEM provoca revolta em estudantes...". E no outro dia: "não haverá o cancelamento das provas do ENEM, mas sim uma...". E, no outro dia, mudou tudo de novo. Sinceramente, até agora não sei se está cancelado ou não.
A décima decepção? Como se mais algum problema fosse necessário, com a divulgação dos gabaritos recebemos o golpe mais pesado de tudo isso: pessoas que não estudavam há mais de dez anos acertaram um número de questões muito próximo ao nosso número de acertos. Isso ocorreu por todo o país, e aqueles disseram que chutaram muitas questões, que saíram cedo. Essa gota d'água acabou com todos nós, que passamos a vida toda (até agora) estudando, nos preparando para esse bendito vestibular. E agora? E a humilhação? E a incompetência? O problema é conosco ou é com eles? Tem como saber?
Sinceramente, eu cansei. Cansei do ENEM, cansei dos pronunciamentos do Governo e da Justiça Federal, cansei de corrigir a prova indignada por que a questão indicava ser uma coisa e era outra... Cansei de tudo isso.
Querem saber? Agora eu é que não estou ENEM aí pra tudo isso...
Universidades regionais e que ainda não adotaram o Exame Nacional do Ensino Médio... aí vou eu!