Críticas & Criações

Agora em versão realista e trevosa. Leia para entender.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Vida

Abriu os olhos
E a luz os ofuscou
Onde estava?
Quem era aquela
Criatura que agora
Olhava, não mais
Mecanicamente,
Para as coisas?

Conhecia-se de
Outra maneira...
Conhecia-se, aliás?
Talvez, antes
Mas agora, espelho
Novo e limpo

Desceu... Subiu, aliás
Pé diante do outro,
Cuidado
Pra não cair de novo.
Sentiu a irregularidade
Das tábuas, do piso
Melhor assim?

Melhor. Assim, seguiu
Janela? Um campo
Uma ponta, uma porta
Do lado oposto
Pegadas. Outra ponta.

Como Santiago, queria
Atar as duas pontas
Que compunham essa vida
Que compunham...
Composição...
Compuseram...
Pretérito?

Vida em pretérito
Medalhas de mérito
Por segurança?
Por colocar-se
Em lugar de outro
Outro que salvou...
Manteve seguro?
O outro de si, manteve
Seguro? Covardia.

Pisou nas pegadas do campo
Pés que já se foram.
Pegadas. Um caminho.
Caminho que permanece,
Trilha, para outros
Aventureiros.

Seguiu pegadas e logo
Encontrou mais delas
E mais, e mais... Infinitas?
Estavam ao redor, no topo,
Nas bordas, no centro,
No tudo. Pegadas. Faróis.

Sentou a um canto. As
Pegadas convidavam,
Chamavam. Continue!
Esperou. Não precisava
Ter pressa. Já achara
O caminho. Os caminhos.
Respirou, sentiu o ar
Adentrando os pulmões,
Levando a pureza a todo
O corpo. A mente, o coração.

Virou o rosto. Olhou o céu
Pássaros, asas... Asas.
Liberdade. Livre da dor,
Livre do mar nos olhos,
Livre do vazio.

Livre do vazio,
Ela ergueu o rosto o quanto pôde
E mirou o azul, abrindo a boca,
Gritando a plenos pulmões
E pela primeira vez desde então...
"ESTOU VIVA!"

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Mil, nenhuma noite

Dobra-se como cobra
Sobre si
Recobra a consciência
Espera novamente uma falência
Para mergulhar na escuridão sem dor

Mas a psique não permite
A mente ainda insiste
Abrem-se os olhos
E logo faz-se fonte sobre a fronte

Tudo o que foi perdido
Retorna. Tênue, esvoaçante
E quando a mão vacilante
Tenta alcançar
Novamente se desfaz a névoa
Em gotas de vapor de sonho
Em asas que não vão voar

Lamento profundo escorre
Do olho, do queixo, do peito
Desce o rosto ao mais
Baixo que pode: o colo
E descendo tanto, como restaria
Ali algo de orgulho?

O medo e o frio se achegam
Tentam acalentar, mas falham
Embora sejam companheiros
De toda noite. Inalam
Perfume de dor, bem forte

A bússola perdeu seu Norte
E no mar afoga-se um suspiro
Que abre espaço para mais água
Mais mar, oceano, perigo

Afoga-se dentro de si
Já não tem mais em que
Agarrar-se
As bordas escorregam
As mãos não estão firmes
O frio em nada ajuda

Cai no abismo, quem dera
Fosse do esquecimento
É um poço de memórias
Que são boas
Ou, pelo menos, deveriam ser

Caracol

Noite escura
Lençóis frios
Caracol

Só memória
Só a lua
De um sol

Nada resta
Só relógios
Atrasados

E o mar
De lágrimas
A cruzar

Lento nado

Rei_nada

Sem palácio, sem castelo,
Desolada. Ela caminha
Quem outrora foi uma rainha
E agora nada é, nada tem
Além do desespero

Nos jardins, as flores murchas
Nos corredores, molduras vazias
Na sacada, a lua se esconde
Pra onde foram todos, pra onde?

O rosto, outrora belo, agora
Contorcido em dor profunda
Nem finge, sequer tenta negar
A tristeza na qual, não lentamente
Afunda

Busca algo, um aconchego, e encontra
Dentro de si um mistério, interrogação
O que seria aquilo encrustado
Como uma pedra com raízes fundas,
Bem fundas, dentro de seu coração?

É um rosto, é um espelho, é um livro
É tudo e nada, ela não mais reconhece
O novelo se desfaz como o castelo
Em pedaços. Ela ora em vão, faz preces

Sendo divindade ou mitologia [quem
sabe]
A velha e duas irmãs. Com pena espia
E mesmo aquela que possui a linha fina
Sente pena da mulher, tão pequenina
Com uma imensidão dentro de si

"Buraco negro que abriu-se em meu peito
Suga tudo, em tudo dá jeito
Menos na dor que me faz curvar
Sobre mim mesma"

Rainha sem coroa, sem castelo
Sem tesouros, sem riqueza
Que ergueu ao seu redor, fortaleza
Esta que também agora desmorona

Um som, lamento do não-esquecer
Atravessa o pátio, o salão, e ecoa
Atravessa muros e, na beira da lagoa,
Uma lágrima negra termina de correr

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ter ou Não Ter

Não tenho mais pressa
Porque o tempo às vezes pára
E o que eu vou fazer? Apressá-lo?
Mexer com o tempo é algo perigoso,
Descobri. Melhor deixá-lo agir como quiser

Não tenho mais sorrisos
Não para todas as ocasiões
É que o estoque é limitado, entende?
Usar sempre seria um desperdício
E sorrisos, pra mim, são como barras de ouro

Não tenho mais luz pra dar e vender
Economia de energia
É a chave para o futuro, dizem
Então minha luz só brilha
Para aqueles que quero em meu futuro
Às vezes ele não estarão lá, claro...
Mas eu tentei, mesmo assim
E se você viu minha luz brilhar
É porque eu queria você lá

Não tenho mais lágrimas
Porque todas as noites
Eu me utilizei de seu poder
E mesmo assim ainda há tanto
Tanto a ser tirado de dentro de mim
Que vou ter que fabricar mais...
Mas isso não é um problema
Nunca foi

Não tenho mais sorte
Nem forças atuantes da garganta
Em pleno grito de independência
Agora deixo o destino
Que é mais sábio que eu
Tomar algumas decisões

Não tenho mais galhos
Então evito me agitar
Porque estou em areia movediça
E se eu me mexer
Em que(m) vou me apoiar depois?

Pensando bem... Tenho galhos.
Só não quero usá-los pra não quebrá-los
Pois eles são, para mim, tão valiosos
Quanto um sorriso

Pensando bem... Tenho pressa.
Pressa de que o tempo seja o tempo
E aja como sempre faz, curando as feridas do vento

Pensando bem... Tenho luz.
Afinal, paguei as contas direitinho.
Economizar para o futuro é precaução...
Mas desde quando sou precavida?

Pensando bem... Tenho sorrisos.
E posso utilizá-los, quando tiver vontade
Mas só se forem verdadeiros
Se bem que raramente não o foram

Pensando bem... Tenho lágrimas.
E mesmo assim vou produzir mais
E mais, e mais
Porque, afinal... Ainda estou viva
E para os vivos, o estoque de lágrimas
Nunca é suficiente

Quanto à sorte...
Pensando bem...
Nunca tive sorte.
Mas, analisando...
Pensando bem mesmo...
E daí?

Coralixão

Meu coração é como um depósito de lixo:
Poucos se aventuram a adentrá-lo
Porque, dizem, há monstros vivendo ali
Animais vivem mesmo ali
E não por isso morrem
Nem por isso atacam
Apenas vivem
Coisas antigas são jogadas ali...
Algumas coisas novas também
Coisas que não servem mais
Coisas que sempre vão existir
E coisas que vão demorar
Mas, um dia,
Vão acabar se degradando
Poucos pensam em purificá-lo
Porque purificar algo que está tão escondido que ninguém vai ver?
Alguns olham de longe, mas não passam do portão
Têm medo de se contaminar com as impurezas do interior
E realmente há impurezas
Mas, para aqueles que se aventuram a adentrá-lo
E que fazem dele seu sustento
Se esses olharem bem, bem no fundo
Vão descobrir que há coisas boas
E até valiosas
Em seu interior

Saneamento Básico

Quer chorar?
Me perguntam, irônicos
Quero
Eu respondo, séria
Me olham como se eu fosse um poço profundo e impossível de adentrar
No qual vivem monstros que logo atacarão quem se aproximar

O poço é profundo
Mas não é impossível adentrá-lo
Os monstros vivem mesmo
Mas não vão atacar qualquer um que se aproxime

Fazem o que pedi que fizessem
Mas me olham como descrentes do que falei
Não ligo, não adiantaria
A visão deturpada que têm do choro
É tão caleidoscópica
Que a mim realmente parece um sonho
Daqueles com xadrez e perspectiva
Que confundem a mente

Chorar não é ruim,
Alego
E não me dão crédito

Tudo o que eu quero, às vezes, é chorar
Continuam sem me dar crédito

Então eu choro
Tentam me fazer parar
Eu gosto disso, acalentam-me a alma
Mas também preciso continuar chorando
Porque se eu não chorar
Como vou desentoxicar meu coração?

Ciclo

Veio como um raio
Me deu choques constantes
E me deixou elétrica

Depois transformou-se em água
Maleável, suave e ao mesmo tempo forte

Depois virou espuma
Ilusão, que se desfazia entre meus dedos

Depois virou fogo
Que queimava meus sonhos
E os transformava em cinzas

Depois virou terra
Que eu queria pisar, espalhar
E na qual um dia eu quis construir

Depois virou gás
Mas um gás tóxico
Que a todos contaminou
Que me deixou confusa
E que me fez desejar não mais respirar

Agora?
Agora espero, usando uma pseudo-máscara
Espero que vire poeira
Que vá embora com os giros
Que depois assente, acalme em outro lugar
Em outra parte da estrada

Espero que não mais se torne raio
Que não mais se torne água
Nem espuma, nem fogo, nem terra
Espero que fique imóvel onde deveria estar todo o tempo
E que não venha mais me importunar

Embora eu saiba que, pra tornar a raio
É apenas uma questão de tempo
E então...
E então recomeçam os choques

O Punhal da Julieta Invertida

A cada passo me dói a sola dos pés
Na realização de mais um "talvez"
Na roda gigante da vida... Moinho
Que nos leva alto, abaixo, sozinho

A cada olhar me dói a íris
Na reflexão de imagens líricas
Que não passam agora de filme antigo
E na imagem de TV que desliguei ao vivo

A cada toque me dói a ponta dos dedos
Na ilusão de que havia espuma, não rochedos
Na realização de um sonho que virou pesadelo
Cortam-se em cacos que não refletem o espelho

A cada sorriso me dói a boca
Na vontade de me deixar ser louca
No desejo de que não mais doam
As palavras que ainda me magoam

A cada cheiro me dói a lembrança
De ter perdido a esperança
E eu farejo, encontro, mendigo
Carinho, afeto, amigo... Ou mais que isso?

Gosto de sangue amargo
Sobe do coração à boca
E do cérebro, a pouca
Alegria restante escoa

Tudo saindo nas lágrimas
Que escorrem, por um rosto
Que não se reconhece mais
Esqueci do que eu sou capaz

A incapacidade de esquecer
A vontade de viver
Fazem em mim grande pergunta
E grande contradição: como,
Como lutar pela vida
Com um punhal no coração?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Descarrilhado

Tenho medo das mãos, por que as mãos têm os dedos, e os dedos cutucam as feridas. As mãos vêm em forma de bocas, os dedos vêm em forma de palavras. Mas as palavras que são ditas não são as que procuro. Nem usando a maior lente de amplificação do mundo, porém, eu poderia encontrá-las, por que elas nem foram pronunciadas. Nem sei se foram pensadas. Perderam-se, talvez... Ou simplesmente não tiveram coragem de sair. Motivação de sair.
O que me preocupa é justo o por quê de não terem saído...
As bocas me esqueceram?
Os pensamentos não falaram em mim?
A lembrança não atormentou?
A lembrança me atormenta... Mas eu quase não tenho lembranças... E é tanta incerteza, Meu Deus, tanta incerteza, que nem sei mais o que pensar.
Fui abandonada? Fui esquecida? Fui coagida a agir como agi? Ou agiram por mim e eu nem vi?
São tantas perguntas! Eu não consigo alcançar as respostas... Talvez seja uma só. Talvez sejam várias. Talvez não existam.
O pior é que, se fui abandonada, foi por quem mais deveria me amar... Por quem devia me amar incondicionalmente e agora sequer lembra que eu existo... Sabe, mas não lembra... Como um aluno muito nervoso em uma prova... Mas ele tem coração para sentir-se nervoso? Ele estudou o suficiente para responder a uma prova? Eu não sei. Quase nada sei sobre ele. Apenas que me esqueceu... Me esqueceu e eu não sei por que. Não fiz nada de ruim, que lembre. Desde quando respeitar-se é um crime? Devo ser julgada?
Quando tentei falar, ele me impediu, pois as palavras que falou depois apagaram as que eu tinha dito... Ele virou tudo de pernas pro ar. Ele transformou o que não existia em algo existente e terrível demais para existir.
Isso me atormenta. Isso sempre vai me atormentar. E eu sei. Mas não quero dar o primeiro passo. Quero esquecer.
Maldita memória que não me permite esquecer!
Malditas mãos que não me permitem fingir!
Malditas bocas que sequer me deixaram viver!
Benditas palavras que sequer puderam existir!